RESENHA: Aline Calixto | O desafio da Serpente

serpente
Foto: Márcio Costa

 

Resenha de show
Título: Serpente
Artista: Aline Calixto
Local: Teatro Bradesco (Belo Horizonte)
Data: 23 de novembro de 2017
Cotação: * * * *

Enganou-se quem achou que Aline Calixto abandonou o samba, ritmo que a fez conhecida nacionalmente, por utilizar tanto na criação do CD quanto ao vivo no show Serpente, a harpa luxuosa de Cristina Braga. Ele, o samba, mesmo que timidamente, esteve presente o tempo inteiro na estreia de ontem, 23 de novembro de 2017 que aconteceu no Teatro Bradesco do Minas Tênis Clube às 20h em ponto. Em parceria com a guitarra de Pedro Sá e a bateria eletrônica de Domenico Lancelotti, o espetáculo carregado de intensidade dramática,  foi construído em ato único e apresentou uma cantora mais evoluída musicalmente com técnica vocal digna de quem tem anos de experiência. Calixto despontou em 2009 e desde então se afirmou sambista gravando canções de bambas como Arlindo Cruz, Dona Ivone Lara e Zeca Pagodinho. Mas em Serpente, o buraco é mais embaixo, a  dor é mais forte e as cicatrizes estão na alma. Aline compôs e expôs seus desamores trazendo a tona a máxima de que o amor e ódio andam juntos e nada mais denso que cantar o que de fato sentiu na pele. Com figurino ousado e desenvolvido exclusivamente por Alba Bloom, foi possível enxergar nas mangas compridas e na capa o papel da ecdise, em que a pela antiga que está suja, feia e machucada é trocada por uma pele limpa, viva e mais feliz. Assim vai se transformado o show. Com um trabalho cênico nos gestuais marcados para cada música, Aline pouco explora o proscênio, exceto na musica final, É Amor,  em que oferta o maior dos sentimentos a todos os fãs presentes que foram aplaudir de pé a artista. Thiago Delegado, músico e amigo, fez uma participação incrível em Coração Vulgar (Paulinho da Viola), com seu violão mágico.  Raquel Coutinho e seu tambor swingado, deram vida a Sentir, sexta faixa do disco. Dentro da proposta de fazer um trabalho intimista, escuro e dolorido, Calixto cumpre. Acredito que na estrada e amadurecido, o Show Serpente tende a crescer e confirmar que estamos diante de uma cantora que vai além dos limites do tamborim. Sair de Meu Ziriguidum (2015) em que o batidão é latente requer uma profissional certa de que conquistar novos olhares sobre si mesmo é no mínimo desafiador. O bote, talvez, seja introspectivo e uma forma de libertar alguma mágoa que ficou e, isso é muito bom. Que hoje, o C’est avec vous, é a certeza de que o amor vale e sempre valerá a pena.

Por: Márcio Costa.

 

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